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esse é pra adelita

Achei uma carta que escrevi em 2004 em que eu citava o mesmo trecho do Rilke que falei hj pra você:

“Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer, por mais banal e barata que fosse; por uma aparência de acordo insignificante com quem quer que seja, com a pessoa mais indigna. Mas talvez sejam essas, justamente, as horas em que ela cresce, pois o seu crescimento é doloroso com o de um menino, e triste como o começo das primaveras.”

8-75-19
encontrei essa foto hoje depois que vcs saíram.

e ainda da mesma carta:

“Rilke era um verdadeiro religioso da solidão. Não sei ainda no que concordo ou não, mas tem feito sentido: o amor é o encontro de duas solidões, que se saúdam, que se protegem e que se limitam, mas que continuam sendo duas solidões. Mesmo que possamos nos comunicar, nunca deixaremos de ser sós, é isso que me parece, que a solidão vai ser sempre necessária e presente.”

Pra não dizer que só falei de trabalho

Outro dia, durante a conferência  com a galeta do TeTo projects, perguntaram pra gente se a gente se influencia nos trabalhos. Difícil essa pergunta porque a influência é uma coisa tão difícil de medir… mas eu fiquei pensando que sim, mas de uma maneira ainda sutil e crescente.

E acho que é nos momentos mais prosaicos que absorvo mais das pessoas. Ou discutindo assuntos que não tem nada a ver com o trabalho de ninguém. Talvez os insights não aconteçam nesses momentos banais ( talvez sim), mas são esses momentos cotidianos que constroem as relações e a confiança pra se entregar e pra trocar de verdade.

eu do meu cantinho vendo a Maíra desenhar do cantinho dela
eu do meu cantinho vendo a Maíra desenhar do cantinho dela
a primeira noite que a gente dormiu na casa
a primeira noite que a gente dormiu na casa
reconhecendo o espaço vizinho
reconhecendo o espaço vizinho
depois do jantar com a Silvia Mecozzi
depois do jantar com a Silvia Mecozzi
pra lá de Marrakesh
cantando qualquer coisa

uma crise

Não falei mais aqui. Tava em crise.

O Basbaum me apresentou uma artista, Roni Horn. ( não achei site dela, mas esse é o link pra retrospectiva do Tate modern)

Becoming a landscape, de Roni Horn
Becoming a landscape, de Roni Horn

Nesse livro da Tate que ele trouxe tinha vários trabalhos. Esse aí de cima consiste em uma série de dípticos em que as fotografias não são sempre idênticas. Acho surpreendente como duas imagens quase iguais poder ser tão diferentes.

As conversas com o Basbaum tem sido de uma riqueza sem tamanho. Curioso como ele me acerta quando menos me mira. ( A Maíra fala isso de um jeito bem melhor). Mostrando de relance os trabalhos da Roni, ele comentava como ela mergulhava em cada projeto e se esgotava em cada pesquisa.

Comecei a olhar meus trabalhos e pra mim mesmo e me assustei de como minhas séries são pequenas 5, 6 fotos… Comecei a perceber como eu tenho dificuldades em persistir numa coisa e como eu tenho uma certa ânsia pra terminar. E que o fato de ter pelo menos 5 projetos em andamento pode também me dispersar, me eximir de me aprofundar.

Essa criste tem sido bacana: me deu muita vontade de aprender de outro jeito, de inventar novos approaches e de ter mais coragem.

Tenho investido boa parte do meu tempo na casa olhando e retrabalhando o material de Coney Island. Uma foto por dia.

E essa persistência tem me dado algumas surpresas boas, como essa nova preferida.

essa precisa ver grande
essa precisa ver grande

Sensação nova essa, não uma vontade de terminar esse trabalho, mas uma vontade de caminhar com ele e ver até onde ele vai.

dicionário de símbolos

Mancha

(Segundo o Dicionário de Símbolos que a Maíra trouxe pra cá)

(…) Por si só as manchas não formam nenhum desenho preciso; toda a sua significação advém da interpretação que os interrogados lhes dão. Eles projetam a sua personalidade no que as manchas lhes fazem lembrar. Elas se revestem, assim, de um valor simbólico extremamente diverso, de acordo com a disposição do sujeito, sua cultura, suas obsesses, suas deformações, etc. O símbolo é aquilo que ele afirma ver. A mancha desempenha um papel de introdutor de símbolos. Esse mesmo papel vai sr desempenhado pelas nuvens, por poças de água num caminho, por marcas numa parede, pelo salitre.

Além desse papel indutor, que a torna infinitamente polivalente em símboos, a própria mancha é um símbolo, o de uma degradação, de uma anomalia, de uma desordem; é no seu gênero, algo antinatural e monstruoso (adorei isso). Seja o efeito do envelhecimento das coisas que se desgastam, ou o resultado de um acidente, a mancha revela a contigência do ser, cuja perfeição, quando atingida, tem pouca duração. É a marca da fraqueza e da morte.

essa é de hoje
essa é de hoje

chegando

Hoje foi dia de chegar e se aconchegar.

Resolvi levar todos os livros que adoro pra compartilhar, trabalhos difíceis de digerir como o do Saudek pra ver se eu consigo encarar.

o tesouro
o tesouro

Resolvi começar a trabalhar as fotos de Coney Island que tavam aqui na parede de casa me atormentando.

Essas fotos já viraram duas breves séries, o último abandono ( que eu ando rejeitando um pouco) e espelho manchado.

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quando o hopper foi me encontrar lá.
quando deu saudade de fazer cinema
quando deu saudade de fazer cinema

Existem muitas outras fotos que gosto bastante mas não acho que caibam nessas séries. Editar é o trabalho mais difícil.

a unica foto que tratei hj. (nao sei se acabei)
a unica foto que tratei hj. (mas não sei se acabei)

Quando Basbaum chegou começamos uma conversa muito boa em que ele questionava o meu trabalho e contextualizava as coisas que eu falava no contexto da história da arte. Era difícil entender na hora, mas acho que o que ele tava fazendo era incluir as questões que eu levantava em uma discussão maior e muitas vezes já trabalhada por teóricos e/ou artistas. Foi bem intenso e bom.

Acho que esse momento de exposição de processo pode me ajudar muito a entender melhor como e por que eu crio. Esse embate com o Basbaum e os próprios artistas promete ser muito promissor.

Vou dormir com essa:

“Com essa sua técnica vc arrumou um belo jeito de não ter que se preocupar com a técnica. Pra quê?”

impressões primeiras

Hoje aconteceu o primeiro encontro dos artistas convidados com o sérgio e com as meninas da casa.

Tô com uma sensação mista de excitação e pânico. O projeto é incrível . As pessoas são interessantíssimas. Tudo muito bem articulado.

Não tenho a menor idéia do que vou produzir, não pensei em nada. Quero muito me alimentar dessas influências todas, e dessas novas referências que estão surgindo. É uma chance incrível pra crescimento pessoal e pra amadurecer o trabalho.

Até hoje eu precisei muito do silêncio, solidão e tempo pra produzir. Quero aproveitar uma condição diferente pra experimentar outras formas de fazer, pra experimentar um processo mais aberto e permeável.

Um mês.  será que eu consigo?

Gui Mohallem

gUi-mohallem-por-Sergio-Zacchi

Mineiro de Itajubá, formou-se em Cinema e Vídeo pela ECA-USP em 2003, especializando-se em cinematografia.
Participou de projetos de fotografia e educação na França e na Austrália, onde realizou estudos de aperfeiçoamento e ministrou workshops.
Foi educador e colaborador pedagógico de projetos sociais de cinema e educação, tais como Instituto Criar de Tv e Cinema e as Oficinas Tela Brasil.
Em meados de 2007 passou a se dedicar exclusivamente ao seu trabalho como fotógrafo e já em 2008 fez sua primeira exposição individual em Nova York com o Ensaio Para a Loucura. Atualmente dedica a maior parte do seu tempo ao desenvolvimento de seus projetos pessoais e nas horas vagas fotografa para empresas e periódicos como Bravo!, Folha de São Paulo, Claro e Roche.

É representado com exclusividade na América Latina pela Galeria de Babel.