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Conference call de feriado! São Paulo – Amsterdã

Acabamos de participar de uma conversa com as meninas do projeto do Hercules Martins, o TETO, direto de Amsterdam, via Skype.

A princípio foi uma experiência rica em potencial de discussão: no sentido de tanta diferença cultural, espacial, conceitual e pragmática. No entanto, creio não ter sido tão lucrativa quanto poderia ter sido.

Elas são inteligentíssimas (a Sara, e a Sanne e a terceira cujo nome não consigo lembrar por descuido). Bastante focadas, em níveis bastante elevados no quesito “condução de raciocínio em meio a conversa na língua inglesa” (se não me engano a Sara tem uma tese de mestrado que pode ser acessada pelo site dela: www.saravanderzande.com).

Pareciam bastante interessadas no nosso espaço, no modo como a gente vem convivendo e trabalhando. Perguntaram sobre a nossa interação com o bairro, sobre a relação entre o bairro e a cidade, sobre a nossa situação dentro da casa (workshops, trabalhos em processo, etc). Foi incrível perceber – inclusive o Sérgio Basbaum comentou isso – o modo firme como elas se posicionam diante de algo que realmente as interessa: elas perguntaram muito mesmo, de modo a tentarem absorver tudo o que poderíamos oferecer a elas em palavras e pensamentos traduzidos.

Eu gostei muito de tudo, embora tenha ficado, de fato, um pouco tenso no sentido de não ter conseguido nem chegar perto de render, em inglês, o que eu renderia em português, em termos de discussão.

Bom, mas como meu papel aqui não é bem o de informante (creio que, por falta de categoria, nem conseguiria executar tal papel!) sobre o que está acontecendo por aqui, eu vou começar a falar do que eu comecei a refletir depois de tal “conversa internacional” (ou espécie de conference call feita em feriado).

É impressionante como elas já sabiam sobre alguns de nossos assuntos explorados em nossos trabalho. Num determinado momento, eu percebi que a Sara sabia falar, em inglês, melhor do que eu, do meu próprio trabalho (como assim?!?!). Ou seja, ela já sabia de assuntos abordados plasticamente no meu trabalho, antes mesmo de me perguntar sobre a minha investigação. Provavelmente, o Hercules traduziu algumas de minhas idéias para ela antes do chat. Ou não. Vai ver ela mesma entendeu o português! Bom…

As fotos do Gui também já haviam sido vistas por ela. A Sara até comentou de como havia gostado delas, no mesmo momento em que o Hercules perguntava onde elas eram feitas. O trabalho do Bruno também entrou no jogo, e olha que ele nem pôde vir hoje!

Talvez, investigação seja mesmo isto. Ou melhor dizendo, saber um pouco do que se trata a Casa Tomada, mesmo antes de perguntar em que consiste as diversas relações estabelecidas aqui dentro, entre nós e o espaço.

A gente tem o link do TETO no site da Casa Tomada. Mas se não fosse o próprio Hercules me mandar um e-mail com especificações do projeto, as fotos do trabalho do Justin (artista que está atualmente expondo no TETO) e o texto da Alena Alexandrova (autora da crítica deste trabalho), eu não saberia muito sobre o que está sucedendo por lá. Percebi que a gente não estava tão curioso quanto eles (não pelo fato de não estarmos curiosos, mas pelo fato de eles estarem mais concentrados nas suas curiosidades). Talvez pelo domínio do inglês, que elas tinham. Talvez pela maior fluência de raciocínio. Talvez pelo foco mais estabelecido, por elas, diante de suas próprias preocupações poéticas e conceituais. Talvez pela falta de preguiça, mesmo. Ou talvez seja mesmo o que o próprio Basbaum disse: Descartes pois ao mundo o que pensava, depois de ter sido exilado em Amsterdã.

Unheimlich

uma vez a gabriela godoi (namorada) me comentou de um texto do Freud, que a Dora Longo Bahia (professora e atual orientadora dela) tinha indicado para leitura: Unheimlich – O estranho. O texto esse tá no volume XVII das obras psicológicas completas do Doutor Sigmund. Com muito respeito ao leque aberto ou não da psicologia, eu peguei pra ler o tal texto, já sabendo que ele me seria bom, uma vez que a gabi já me havia comentado sobre alguns de seus tópicos… No entanto, eu não sabia que ele me faria refletir tanto assim sobre mim….e  inclusive sobre o que eu venho pensando em fazer por aqui…

Eu ainda não acabei de ler… leio muito devagar… isso me atrapalha muito…

Bom o texto já começa falando do significado germânico da palavra heimlich… é muito incrível, pois para isso, ele recorre a diversas línguas com a intenção de se utilizar de traduções e sinônimos para compreender semantica e culturalmente essa palavra insondável… (nossa, passou um carro na rua de trás com o som alto, tocando aquela música da Cássia Eller: palavraaas, palaaavraaas, pequeeenaaaas… NOSSA!! meu deus! enfim…)

Quando Freud pega heimlich para desmonte, ele nos coloca diante de um grande abismo germânico do que pode ser uma palavra dotada de circunstâncias e ambivalências… Me deu vontade de fazer aula de alemão, depois de ler o que ele fala sobre uma simples junção de letras. Heimlich é tudo aquilo que é ligado a situação domiciliar. É o que está em casa, no espaço seguro do mundo doméstico. No entanto, quando ele começa a falar do que é caseiro, ele caminha em direção ao precipício. E entre algumas derivações do que pode ser o doméstico, há duas que se alojaram em minha mente, talvez por serem mais caras ao que eu venho pensando para o meu trabalho e minha vida… Grossíssimo modo, ele diz que o doméstico, ao mesmo tempo que é o conforto, que é a casa que te tranquiliza, que é  o espaço que você domina e entende por ser dotado de uma série de  códigos particulares e genéticos (isso dentro de uma interpretação minha, no caso de uma casa de família), é o escondido, oculto da vista da sociedade. É o espaço ou situação que é sonegado aos outros que não pertencem a esse lugar.

É incrível saber que o heimlich, ou doméstico, é algo que para um emerge como situação segura e familiar, e que para outro ocorre como um espaço desconhecido, impossível de ser frequentado, estranho.

Isso me faz lembrar do “píques”, das brincadeiras de Pega-Pega. É um espaço que menciona o ponto de descanso,  ponto de tomar fôlego, de recuperar as energias seguramente para correr de novo. Porém, para o pegador, é o ponto que é reservado ao que foge. É o ponto dentro do qual o pegador não pisa. É o espaço sonegado ao pegador, em prol da continuação ou prolongamento da brincadeira.

Voltando ao assunto, é incrível pensar que o unheimlich (ou o estranho) está tão dentro do universo do heimlich (ou o caseiro), ao ponto que se pode dizer heimlich para dizer unheimlich. Isso pode soar estranho, mas faz todo sentido. Tudo o que é caseiro para quem está de fora desse espaço reservado, é estranho e, por que não, perigoso. E, para quem está seguro em casa, tudo o que não pertence aos seus limites domésticos, é arriscado, não dá tanto pé.

O unheimlich está presente no heimlich tanto semanticamente, quanto circunstancialmente. Isto me leva a concluir (segundo minhas parcialidades) que dentro do lar, doce lar, vive também o estranho em forma de espaço inatingido ou não frequentável. Dentro do quarto seguro, vive o armário que há de ser fechado. E coberto na cama, há o vento que invade a orelha descoberta.

[*Agora, isso tudo é um pensamento não passa de um pensamento parcialmente burguês, uma vez que existe gente que vive o estranho a todo momento por não ter se quer um colchão, quanto mais uma casa. O estranho, para essa grande parcela da população “terceiro-mundista”, pode se tornar o mesmo que o doméstico. Bom…]

Agora fico pensando em minha situação aqui dentro da Casa Tomada, diante das diversas situações particulares surgidas de minhas relações afetivas com as suas distintas ambiências. Quem é o estranho?  Eu? A casa? os quartos que não precisam ser frequentados? O sótão, onde moram as duas caixas d’água? O quartinho de entulho do ateliê do sub-solo? Bom… isso eu ainda tenho de pensar mais.

Para concluir, nada mais por enquanto. Vou postar fotos!

Tentativa de Despadronização (texto)

Tentativa de despadronização

Num sentido mais amplo de compreender e experienciar a palavra “caos”, ou mesmo a situação de “caos implantado”, recorremos a diversas formas que não, o simples ato de abrir um dicionário.

Não que seja desinteressante entender o que possa vir a ser, semanticamente ou etimologicamente, esta palavra. Mas sim, devido ao fato de já se ter produzido muito em cima dessa idéia. Não só filosoficamente, como plástica e arquitetonicamente. E num grau arquitetônico de reflexão sobre o que pode ser o caos, é preciso recorrer ao que já foi construído em cima desse vasto campo.

Numa tentativa de se mergulhar numa compreensão beuysiana [1] do artista como uma voz, como um trabalhador da matéria dotada de ideologia, tem-se prezado em nossas recentes discussões sobre o limite tênue entre arquitetura, arte e vida [2], o fato de que o caos – como acontecimento – reina e é inevitável. E se há teto e parede, ele surge da terra.

Se o raio que vem da terra é um raio sombrio, então que se faça compreender, ou chegar o mais perto possível de alguma luz que nos possa colocar diante do vasto subsolo que nos embasa. E se quisermos nos colocar diante do plano obscuro do caos, para dele sugar alguma coisa, precisamos entender cada vez mais o que nos cerca ao longo de nosso cotidiano, avaliando biológica, física e plasticamente tanto o chão e o teto, quanto o que nos restou de barro.

Essa discussão nos remete quase que automaticamente ao conceito de “Entropia” de Robert Smithson (1938 – 1973), que, numa rápida apresentação da idéia, se posiciona diante de um caos que se revela quando são derrubados os rígidos muros divisores das coisas que nos cercam. E não se trata de se destruir os limites, de se levantar como um militante e levar a baixo as margens da ordem estabelecida. Trata-se sim, de avaliar até que ponto esta ordem é dotada de energia suficiente para que se agüente a ação do tempo e da natureza. A tudo que se aplica uma força, a reação é inevitável.

Diante de toda uma corrente de pensamentos, pensamos que a nossa “Tentativa de Despadronização” na Sala de Estudos do Prédio de Arquitetura para a Semana Integrada de tema “Caos”, nada mais foi do que tentar colocar em questão a idéia de paisagem e sustentabilidade; de conflito eterno entre o desenvolvimento e o limite; entre a verticalidade e a horizontalidade; entre a vida e a morte.

Ao deslocarmos diversos tipos (espécies) de ervas-daninhas – retiradas dos arredores da Universidade, de praças e bosques vizinhos – para o interior de um espaço no qual se pensa o tempo, o espaço, a vida, e a força construtiva diante das forças naturais diametralmente contrárias, podemos iniciar uma discussão sobre o que pode vir a ser o ambiente de estudo sobre o lugar comum e sobre o mundo planificado e planejado diante do prevalecimento do caos.

Encontramos na erva-daninha, um objeto vivo rico em ideologia, símbolo de algo que surge independentemente de qualquer controle exercido e colocado. Ela surge, geralmente, como um aviso de que a brecha existe, e que é por ela que tudo poderá se desenvolver, livre de qualquer forma de limite.

Nesse caso, enxergamos no taco, um exemplo potencial de padrão, de ordem e estabilização. E ao substituirmos o taco por um punhado de terra que sustenta o acaso em forma de planta-parasita, por qualquer que seja a duração de sua vida em meio à toda a construção do prédio, colocamos em cheque as nossas próprias questões. E convidamos todos os que pensam e produzem a arquitetura e o urbanismo, a repensarem conosco sobre o que pode vir a ser uma tentativa de caos experienciado.

Por último, o papel laminado na parede se faz presente como uma tentativa de construção de estufa para o desenvolvimento do “caos controlado”. Posicionado na parede oposta a das janelas, pode refletir a luz que vem de fora, para que se consiga mais iluminação no recinto. No entanto, por que não pensar, também, que um dia surgiu Andy Warhol com a sua “Factory”, ambiente de paredes laminadas, no qual a experimentação surgia sob o total controle do padrão industrial? De um lado uma parede forrada de papel alumínio, apontando para uma possibilidade de passado embasador. De outro lado, as janelas para a paisagem grave do contemporâneo.

Pensamentos de Henrique César, Henrique Te Winkel e Gustavo Delonero.

Texto de Henrique César.


[1] Joseph Beuys (1921 – 1986), grande artista alemão, seminal para a arte contemporânea, e professor de escultura da Academia de Düsseldorf.

[2]  Discussões estas, já iniciadas com todo vigor nos anos 1960 e 70, com arquitetos e artistas como Gordon Matta-Clark e o grupo da Anarquitetura, Robert Smithson, Guy Debord e o Situacionismo, além de Hélio Oiticica e outras mentes seminais para o que hoje somos.

ah! e umas meninas muito gente finas que colaram o papel alumínio na parede junto a mim…. bom…vou postar o texto aqui, e chega!!! afinal, isso aqui é pra falar da nossa experiência aqui na casa, não pra postar jabá de si mesmo… hehe…  (mas é que eu pensei em tudo isso já aqui dentro, e o texto foi feito aqui… bom… enfim….)…

agora sim

eu demorei sim pra entrar nessa estória de blog… meio loucura, não é tão simples!  eu já tava ficando pra trás…. bom, vou fuzilar isso aqui de coisa…. antes de mais nada, acho legal jogar aqui umas fotos de uma intervenção na semana de arquitetura do mackenzie, na qual estudam 2 amigos arquitetos (o delonero e o te winkel)…. não sei… talvez seja legal publicar um texto que eu bolei pra defender o trabalho, que foi ameaçado de ser destruído pela coordenação da faculdade…. digo isso, porque se não fosse a calma da linda e organizada biblioteca da casa tomada, o texto não teria saído tão rápido quanto saiu…. bom, agora só falta descobrir como joga foto no blog…. dessa vez vou tentar sem a ajuda do habacuque! não é questão de mal-agradecimento, meu…. é que eu preciso achar a coisa sozinho… entende?… entendem??

Henrique César

Henrique - retrato

Se tudo que se mostra liso, por dentro está absolutamente rugoso, então que se faça aparecer tudo o que não deixamos ser visto.

O lugar onde acaba a luz é o mesmo no qual começa a sombra. O medo surge quando já não podemos ter domínio de uma situação. Quando tudo parece ser claro, dominado, limpo e desbravado, explode, por uma brecha, um foco de treva.

Assim funcionamos, desse modo funciona tudo. Seja num texto sobre a Entropia de Robert Smithson, seja em uma frase de um filme recente de Lars Von Trier. O fato é que o caos existe, resiste e reina. Seja ele em forma de erva-daninha no concreto, de vazamento ou infiltração nas paredes brancas, ou em forma de universo soturno que atravessa a parede da ordem, e nos invade obscuro, pelos poros.

O trabalho de graduação do curso de artes plásticas da FAAP girou em torno de toda uma busca em cima da bolha obscura, em forma de uma grande sala escondida, onde se encontravam os dutos de ar-condicionado do prédio 1 da fundação. O documentário sobre este espaço, batizado de “espaço negativo”, teve a intenção de trazê-lo às luzes, ou, simplesmente, de tirá-lo da víscera do gesso branco desta instituição.