com curadoria de Galciani Neves
Maio|2012 à Janeiro|2013
A vertigem do relato sobre o transitório: quando o processo também está nas páginas
por Galciani Neves
Por que insistir em um diário? Por que registrar experiências? Que desejos e urgências guiam o relato? Escondido em uma ilha, sem contato com o mundo, o narrador de “A invenção de Morel” (Adolfo Bioy Casares, 1940) escreve com a intenção de “dar perpétua realidade a uma fantasia sentimental”. Escreve e guarda como caminho à lucidez, quem sabe. A escrita é sua âncora, o ajuda a colar cacos da vida – documenta e arquiva seus passos para revelar algo dos resíduos de sua existência.
Maurice Blanchot diz que os diários desenham uma estranha convicção de que podemos nos observar. A documentação de percursos artísticos ou o registro como ação poética desvelam a intimidade de um processo colocado à prova ao mesmo tempo em que se constitui pelo próprio autor de suas notas, ao longo do tempo. Passando suas folhas, é possível interrogar-se sobre os planos, as dúvidas, os acontecimentos, pesá-los, verificá-los, comentá-los para si mesmo.
O registro é uma tentativa de deter instantes para depois tê-los à disposição, reencontrar índices de efeitos do acaso ou daquilo que é experimentação, junto aos caminhos de incertezas ali delineados. A cada leitura é possível também transformá-los. Por vezes, tornam-se trampolins para novas empreitadas; em outras tantas, bússolas com distintas orientações das anteriormente perseguidas ou ainda estratégias classificadas na gaveta das insatisfações, ineficiências.
Na transposição da experiência para o relato, sua natureza impõe-se: em fluxo, impermanente, dinâmica. Uma ficção do processo se elabora: algo mutável se pretende identificável, caracterizável. Nesse atrito entre o que é vivido e o que se registra do vivido: uma intensa teia referencial do trabalho, camadas de leitura e aproximação, variáveis e elementos de projetos em pleno movimento de criação, alterando-se, configurando-se, vindo à tona. Em gerúndio, mesmo quando em pausa.
Livros de viagens, registros, coleções e sequências de notas de percursos de criação tornam-se ignição, possibilidade, recurso de construção ou ainda matéria-prima a ser manipulada. Nutrem um campo de procedimentos para criação de livros de artista – uma espécie de ateliê penetrável ou folheável ao alcance das mãos e do olhar estrangeiro.
O projeto “A casa visita” em sua segunda edição investiga o que pretendem/questionam os artistas que se propõem a traduzir em palavras, anotações visuais, esquemas, suas experiências de criação impregnadas de vivências constitutivas. Apresenta publicações e livros de artista que sejam dispositivos experimentais e reflexivos sobre processos de criação, percursos artísticos ou que tenham caráter discursivo e se aproximem e ampliem a noção de caderno de artista, diário de percurso anotações e escritos de artistas sobre trabalhos em processo ou já desenvolvidos.
Esses livros e publicações, projetos à posteridade, são espaços de diálogo acerca de discussões, que antes se dedicavam a um fórum mais íntimo do artista, como as buscas, as tomadas de decisão, os erros e outros tantos eventos que se tornam componentes ou agentes do processo criativo.
Livros-trajetos: narrativas da construção formuladas em notas que se querem provisórias. E por que torná-los públicos? Para abrir-se ao novo? Para formular outras questões? Para se fazer ver? Para solicitar parceria no que o artista Waltercio Caldas traduz como sendo “um abismo para frente: ideias e matérias construindo maneiras de se tornarem outras coisas”?
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Em sua segunda edição, com curadoria de Galciani Neves, o programa investiga o que pretendem/questionam os artistas que se propõem a traduzir em palavras, anotações visuais e esquemas suas experiências de criação impregnadas de vivências constitutivas. Pretende apresentar publicações e livros de artista que sejam dispositivos experimentais e reflexivos sobre processos de criação, percursos artísticos ou mesmo que tenham caráter discursivo e que se aproximem e ampliem as noções de caderno de artista, diário de bordo, anotações de viagem e escritos sobre trabalhos em processo ou já desenvolvidos.
Esses livros e publicações, projetos à posteridade, são espaços de diálogo acerca de discussões, que antes se dedicavam a um fórum mais íntimo do artista, como as buscas, as tomadas de decisão, os erros, a força do acaso e outros tantos eventos que se tornam componentes ou agentes do processo criativo.
As 24 publicações que integram o recorte são:
| Título da Publicação | Autor |
| Urbânia 3 | Graziela Kunsch e Vitor Cesar |
| Numa data situação | Francis Alÿs |
| A nova arte de fazer livros | Ulyses Carrión |
| Conversa como lugar | Graziela Kunsch e Vitor Cesar |
| Diario de a bordo | Marie Age Bordas |
| Desenhos | Edith Derdyk |
| Para Chegar lá | Kátia Fieira |
| Blá Blá Blá | Fabio Morais e Marilá Dardot |
| Tudo pelo Bem | Ana Paula Lima e Bem Vautier |
| Cadernos de desenho | Aline Dias |
| Banquetes – expansões do doméstico | Breno Silva e Louise Ganz |
| Lotes vagos | Ocupações experimentais |
| Transposições do deserto | Hélio Fervenza |
| Diário de bordo | Carlos Krauz |
| João Modé – solos | Daniela Mattos |
| Matéria gráfica: ideia e imagem | Jacqueline Aronis |
| Concerto para encanto e anel | Nelson Felix |
| Logo Depois da Vírgula | Mattia Denisse |
| Como Fazer Pontes Manualmente | Jimson Vilela |
| Meio | Jimson Vilela |
| The Story of Has-Been | Vijai Patchineelam |
| Hang the Landlord | Vijai Patchineelam |
| Ir Até Aqui | Marco Buti |
| Sem Título | Pedro França |
A Casa Visita: Intermeios – casa de artes e livros, ocorre em paralelo ao projeto Fora a Fora, com o artista Vitor Cesar: exposição, situação, encontro para discussão sobre questões como reativação dos processos de criação, redefinição dos papéis crítico-artista, design como projeto, a noção de aparelho (Vilém Flusser) e de espaço público. Duas conversas com Adriana Gurgel, Felipe Kaizer, Graziela Kunsch, Galciani Neves e Vitor Cesar acontecerão nos dias 12 e 19 de maio, a partir das 15h, na Intermeios – casa de artes e livros.
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In its second edition, curated by Galciani Neves, the program investigates what intends/questions the artists that translate in words, visual notes and schemes their experiences of creating, impregnated with constructive livings. Aims to present publications and artist books that are experimental and reflexives devices about creative processes, artistic pathways or even has a discursive character and approaches and extend the notions of artist notebook, journal, notes about travels and writings about works in progress or already developed.
These books and publications, projects to the posterity, are spaces for dialogue on discussions, formerly dedicated to the artist’s innermost, such as the searches, decision making, mistakes, force of chance and many other events that were part or agents to the creative process.
Casa Visita: Intermeios – house of arts and books, occurs in parallel to the project Fora a Fora, with the artist Vitor Cesar: exhibition, situation, meeting for discussion about questions like the reactivation of creation processes, redefinition of the roles critic-artist, design as a project, the notion of equipment (Vilém Flusser) and the public space. Two talks with Adriana Gurgel, Felipe Kaizer, Graziela Kunsch, Galciani Neves e Vitor Cesar will happen on May 12 and 19th, at 3 o’clock, in Intermeios – casa de artes e livros.











