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esse é pro gui

lembrei de um livro. lembrei que esse livro é do Sponville, que foi uma das nossas primeiras identificações.

lembrei de você quando cheguei em casa. e quando cheguei em casa, me sentindo tão sozinha, eu vi. eu vi a foto que você contou pelo celular. e vi a foto e o texto do rilke, e vi essa solidão toda. e a chuva caiu fina depois de um dia tão quente e silencioso, como no chão molhado da foto. a crise, a casa, o nosso encontro. o bruno, o pra frente, a maíra e seus olhos profundos feito leão fantasma. eu e você dividindo a rede feito primos no interior. você dividindo suas melhores histórias. e para mim, naquela hora, você não era um urso. então a sua casa, as paredes rosas, o lavoura arcaica em cima da mesa. lustres feitos a mão. a vizinha atriz. caetano na vitrola dizendo “na lua cheia tá doida, apaixonada, não sei por quem”. pepino, manjericão e chocolate..por que não? “você tem um tomate, é que eu queria comer um tomate, você tem? é assim, com um pouco de sal”. e aquilo que fazia todo sentido, perdendo o sentido. e aquilo que não fazia nenhum sentido, ganha todo.

as descobertas no carro.as gargalhadas no carro.

(as gargalhadas histéricas fazem todo o sentido!)

a conversa com o pai. o pai é árabe. o pai é humano. um humano lindo. maravilhoooso. o pai se a gente perde faz falta. o pai quando é assim a gente não perde nunca. a analista. o consultório de madeira. o seu consultório, o meu. só nos dez ultimos minutos é que se toca no assunto que realmente importa. o pai internado. o pai homem, o pai lindo, o pai viril. o pai amor.

(essa foto é na ilha do cardoso, ano novo, 2008. queria te mostrar. queria uma foto que conversasse com a sua)

bem..o livro do sponville é: o amor a solidão.

o trecho: “ser só é ser si mesmo, sem recurso, e é a verdade da existência humana. como poderiámos ser outro? como alguém poderia nos descarregar desse peso de ser si mesmo? ninguém pode viver no nosso lugar, nem morrer em nosso lugar, nem sofrer e amar em nosso lugar. é o que chamo de solidão: nada mais é que outro nome para o esforço de existir”.

Agora o mais legal: justo o trecho que eu abri do livro, o Sponville cita o Rilke!!

Rilke encontrou as palavras necessárias para dizer esse amor de que necessitamos, e de que somos tão raramente capazes: “Duas solidões que se protegem, que se completam, que se limitam e que se inclinam uma diante da outra…”

O amor não é o contrário da solidão : é a solidão compartilhada, habitada, iluminada – e às vezes, ensombrecida – pela solidão do outro.

Esse deserto, em torno de si ou do objeto amado, é o próprio amor.

esse é pra adelita

Achei uma carta que escrevi em 2004 em que eu citava o mesmo trecho do Rilke que falei hj pra você:

“Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer, por mais banal e barata que fosse; por uma aparência de acordo insignificante com quem quer que seja, com a pessoa mais indigna. Mas talvez sejam essas, justamente, as horas em que ela cresce, pois o seu crescimento é doloroso com o de um menino, e triste como o começo das primaveras.”

8-75-19
encontrei essa foto hoje depois que vcs saíram.

e ainda da mesma carta:

“Rilke era um verdadeiro religioso da solidão. Não sei ainda no que concordo ou não, mas tem feito sentido: o amor é o encontro de duas solidões, que se saúdam, que se protegem e que se limitam, mas que continuam sendo duas solidões. Mesmo que possamos nos comunicar, nunca deixaremos de ser sós, é isso que me parece, que a solidão vai ser sempre necessária e presente.”

uma crise

Não falei mais aqui. Tava em crise.

O Basbaum me apresentou uma artista, Roni Horn. ( não achei site dela, mas esse é o link pra retrospectiva do Tate modern)

Becoming a landscape, de Roni Horn
Becoming a landscape, de Roni Horn

Nesse livro da Tate que ele trouxe tinha vários trabalhos. Esse aí de cima consiste em uma série de dípticos em que as fotografias não são sempre idênticas. Acho surpreendente como duas imagens quase iguais poder ser tão diferentes.

As conversas com o Basbaum tem sido de uma riqueza sem tamanho. Curioso como ele me acerta quando menos me mira. ( A Maíra fala isso de um jeito bem melhor). Mostrando de relance os trabalhos da Roni, ele comentava como ela mergulhava em cada projeto e se esgotava em cada pesquisa.

Comecei a olhar meus trabalhos e pra mim mesmo e me assustei de como minhas séries são pequenas 5, 6 fotos… Comecei a perceber como eu tenho dificuldades em persistir numa coisa e como eu tenho uma certa ânsia pra terminar. E que o fato de ter pelo menos 5 projetos em andamento pode também me dispersar, me eximir de me aprofundar.

Essa criste tem sido bacana: me deu muita vontade de aprender de outro jeito, de inventar novos approaches e de ter mais coragem.

Tenho investido boa parte do meu tempo na casa olhando e retrabalhando o material de Coney Island. Uma foto por dia.

E essa persistência tem me dado algumas surpresas boas, como essa nova preferida.

essa precisa ver grande
essa precisa ver grande

Sensação nova essa, não uma vontade de terminar esse trabalho, mas uma vontade de caminhar com ele e ver até onde ele vai.

chegando

Hoje foi dia de chegar e se aconchegar.

Resolvi levar todos os livros que adoro pra compartilhar, trabalhos difíceis de digerir como o do Saudek pra ver se eu consigo encarar.

o tesouro
o tesouro

Resolvi começar a trabalhar as fotos de Coney Island que tavam aqui na parede de casa me atormentando.

Essas fotos já viraram duas breves séries, o último abandono ( que eu ando rejeitando um pouco) e espelho manchado.

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quando o hopper foi me encontrar lá.
quando deu saudade de fazer cinema
quando deu saudade de fazer cinema

Existem muitas outras fotos que gosto bastante mas não acho que caibam nessas séries. Editar é o trabalho mais difícil.

a unica foto que tratei hj. (nao sei se acabei)
a unica foto que tratei hj. (mas não sei se acabei)

Quando Basbaum chegou começamos uma conversa muito boa em que ele questionava o meu trabalho e contextualizava as coisas que eu falava no contexto da história da arte. Era difícil entender na hora, mas acho que o que ele tava fazendo era incluir as questões que eu levantava em uma discussão maior e muitas vezes já trabalhada por teóricos e/ou artistas. Foi bem intenso e bom.

Acho que esse momento de exposição de processo pode me ajudar muito a entender melhor como e por que eu crio. Esse embate com o Basbaum e os próprios artistas promete ser muito promissor.

Vou dormir com essa:

“Com essa sua técnica vc arrumou um belo jeito de não ter que se preocupar com a técnica. Pra quê?”

impressões primeiras

Hoje aconteceu o primeiro encontro dos artistas convidados com o sérgio e com as meninas da casa.

Tô com uma sensação mista de excitação e pânico. O projeto é incrível . As pessoas são interessantíssimas. Tudo muito bem articulado.

Não tenho a menor idéia do que vou produzir, não pensei em nada. Quero muito me alimentar dessas influências todas, e dessas novas referências que estão surgindo. É uma chance incrível pra crescimento pessoal e pra amadurecer o trabalho.

Até hoje eu precisei muito do silêncio, solidão e tempo pra produzir. Quero aproveitar uma condição diferente pra experimentar outras formas de fazer, pra experimentar um processo mais aberto e permeável.

Um mês.  será que eu consigo?