Unheimlich

uma vez a gabriela godoi (namorada) me comentou de um texto do Freud, que a Dora Longo Bahia (professora e atual orientadora dela) tinha indicado para leitura: Unheimlich – O estranho. O texto esse tá no volume XVII das obras psicológicas completas do Doutor Sigmund. Com muito respeito ao leque aberto ou não da psicologia, eu peguei pra ler o tal texto, já sabendo que ele me seria bom, uma vez que a gabi já me havia comentado sobre alguns de seus tópicos… No entanto, eu não sabia que ele me faria refletir tanto assim sobre mim….e  inclusive sobre o que eu venho pensando em fazer por aqui…

Eu ainda não acabei de ler… leio muito devagar… isso me atrapalha muito…

Bom o texto já começa falando do significado germânico da palavra heimlich… é muito incrível, pois para isso, ele recorre a diversas línguas com a intenção de se utilizar de traduções e sinônimos para compreender semantica e culturalmente essa palavra insondável… (nossa, passou um carro na rua de trás com o som alto, tocando aquela música da Cássia Eller: palavraaas, palaaavraaas, pequeeenaaaas… NOSSA!! meu deus! enfim…)

Quando Freud pega heimlich para desmonte, ele nos coloca diante de um grande abismo germânico do que pode ser uma palavra dotada de circunstâncias e ambivalências… Me deu vontade de fazer aula de alemão, depois de ler o que ele fala sobre uma simples junção de letras. Heimlich é tudo aquilo que é ligado a situação domiciliar. É o que está em casa, no espaço seguro do mundo doméstico. No entanto, quando ele começa a falar do que é caseiro, ele caminha em direção ao precipício. E entre algumas derivações do que pode ser o doméstico, há duas que se alojaram em minha mente, talvez por serem mais caras ao que eu venho pensando para o meu trabalho e minha vida… Grossíssimo modo, ele diz que o doméstico, ao mesmo tempo que é o conforto, que é a casa que te tranquiliza, que é  o espaço que você domina e entende por ser dotado de uma série de  códigos particulares e genéticos (isso dentro de uma interpretação minha, no caso de uma casa de família), é o escondido, oculto da vista da sociedade. É o espaço ou situação que é sonegado aos outros que não pertencem a esse lugar.

É incrível saber que o heimlich, ou doméstico, é algo que para um emerge como situação segura e familiar, e que para outro ocorre como um espaço desconhecido, impossível de ser frequentado, estranho.

Isso me faz lembrar do “píques”, das brincadeiras de Pega-Pega. É um espaço que menciona o ponto de descanso,  ponto de tomar fôlego, de recuperar as energias seguramente para correr de novo. Porém, para o pegador, é o ponto que é reservado ao que foge. É o ponto dentro do qual o pegador não pisa. É o espaço sonegado ao pegador, em prol da continuação ou prolongamento da brincadeira.

Voltando ao assunto, é incrível pensar que o unheimlich (ou o estranho) está tão dentro do universo do heimlich (ou o caseiro), ao ponto que se pode dizer heimlich para dizer unheimlich. Isso pode soar estranho, mas faz todo sentido. Tudo o que é caseiro para quem está de fora desse espaço reservado, é estranho e, por que não, perigoso. E, para quem está seguro em casa, tudo o que não pertence aos seus limites domésticos, é arriscado, não dá tanto pé.

O unheimlich está presente no heimlich tanto semanticamente, quanto circunstancialmente. Isto me leva a concluir (segundo minhas parcialidades) que dentro do lar, doce lar, vive também o estranho em forma de espaço inatingido ou não frequentável. Dentro do quarto seguro, vive o armário que há de ser fechado. E coberto na cama, há o vento que invade a orelha descoberta.

[*Agora, isso tudo é um pensamento não passa de um pensamento parcialmente burguês, uma vez que existe gente que vive o estranho a todo momento por não ter se quer um colchão, quanto mais uma casa. O estranho, para essa grande parcela da população “terceiro-mundista”, pode se tornar o mesmo que o doméstico. Bom…]

Agora fico pensando em minha situação aqui dentro da Casa Tomada, diante das diversas situações particulares surgidas de minhas relações afetivas com as suas distintas ambiências. Quem é o estranho?  Eu? A casa? os quartos que não precisam ser frequentados? O sótão, onde moram as duas caixas d’água? O quartinho de entulho do ateliê do sub-solo? Bom… isso eu ainda tenho de pensar mais.

Para concluir, nada mais por enquanto. Vou postar fotos!

Uma ideia sobre “Unheimlich”

  1. Henrique, Adorei suas reflexões, ainda mais que a lingua alemã me acompanha desde sempre, Heimlich ,no entendimento coloquial , também é misterioso e Unheimlich é Incrível, e veja, o afixo Un
    significa negação ,ou, aquilo que não é mais misterioso é incrível, e incrível é inacreditável, ufa…

Deixe uma resposta